pitacos sobre futebol, esportes olímpicos e administração esportiva.
Sofredor
Adversário serve para alvo de gozações. Com benevolência, serve para gastar nossa cota pessoal de solidariedade. Mas o que vem acontecendo ao alvinegro de Gal.Severiano é tão simbólico que mereceu minha atenção especial.
Passados alguns dias daquele desastre (para eles) monumental em Nuñes, baixada a poeira, é possível ter uma visão mais clara da situação.
Notável como toda a imprensa brasileira tratou do resultado como uma inacreditável derrocada do Botafogo, esquecendo da luta incansável e heróica do River Plate. Só confirma a minha impressão sobre a falácia que é a imparcialidade jornalística. Ao contrário do que dizem, jornalismo é só a notícia sob um determinado ponto de vista. Vale a versão, mesmo em assuntos despidos de carga ideológica como o resultado de um jogo de futebol.
Bem, mas do nosso ponto de vista, foi a derrota de um clube brasileiro, não a vitória de um grande clube portenho. A imprensa só evidenciou isso em suas manchetes. E o Botafogo passou, em semanas, de líder absoluto do Campeonato Brasileiro, celebrado pelos colunistas como “o melhor time do Brasil”, para escárnio nacional.
A culpa, como sempre, recaiu sobre os jogadores. O problema é que a imprensa está acostumada a tecer suas análises de olho na tabela. O time lidera? Ok, vamos procurar o que elogiar. Está na metade de baixo da classificação? Ok, vamos procurar os defeitos. E, assim, os comentaristas esportivos foram todos elogios para o Botafogo durante o primeiro semestre.
Acontece que o Botafogo desenvolvia um futebol vistoso, com penetrações em tabela pelo meio, bem ao gosto dos nostálgicos do futebol-arte. Mas, contraditoriamente, era um time que se retraía e esperava o adversário em seu próprio campo quando alcançava uma vantagem mínima. Deu, nos jogos finais do Estadual contra o Flamengo, todas as dicas de que era um time amarelão, covarde até.
Teve o azar de perder o Estadual nos pênaltis. Perdesse em campo, nos 90 minutos, e estariam mais evidentes suas falhas. Teriam tempo de consertar.
Ao contrário, entraram embalados no Brasileirão. E a crítica continuava tecendo elogios. Encobria-se que o banco era frágil, que o time corria à base de cafeína, que havia uma extrema dependência do Dodô (um bom jogador, sem dúvidas, mas um veterano) e do Zé Roberto (um jogador de temperamento difícil). Nunca tiveram um goleiro confiável. Sempre tiveram uma defesa de dar arrepios. Mas a imprensa só vê o resultado imediato.
A torcida embarcou nos elogios. Fragilizada pelos resultados medíocres das últimas temporadas, elevou o otimismo a patamares patológicos, e acreditou que poderiam ser campeões de alguma coisa.
Eu afirmei, diversas vezes, enquanto o Botafogo ainda liderava o Brasileirão, que eram meus candidatos ao rebaixamento. Diziam-me maluco. Hoje, ainda que seja improvável a queda tão dura, dados os pontos acumulados no turno, nada parece impossível. E eu já não sou louco quando insisto que o Botafogo pode cair.
O desastre que se abateu sobre o Botafogo era previsível. Não tenho bola de cristal, mas vi o balão inchado só de ar quente sumir mais que suportava.
Os dirigentes de Gal.Severiano capitalizaram tudo que foi possível. Venderam uma imagem de vanguarda administrativa que absolutamente não condiz com os fatos.
E, depois da queda platina, nada foi mais simbólico da transformação do médico em monstro do que o destempero do Carlos Augusto Montenegro, jogando seus atletas ao picadeiro do circo romano que se armou.
Foi só a eliminação de uma copinha - a Sulamericana - que nem é tão valorizada assim. Mas, depois da inevitável queda de rendimento no Brasileiro, era a última esperança alvi-negra este ano. Jogaram ficha demais num time que não merecia o crédito. Deu no que deu. Prepararam uma equipe para seis meses, mas o ano esportivo tem onze longos meses. Na hora da queda, a culpa é dos jogadores.
coringa
pitacos, sobretudo, sobre tudo.
O incansável liberalismo econômico.
Recebi na minha caixa de e-mails correspondência de queridíssimo amigo sobre o peso da Estado no Brasil, sobre como um suposto "esquerdismo" tem nos levado ao atraso. Abro o arquivo anexo, vem um manifesto liberal. Quero deixar claro que o governo do PT não é meu sonho de consumo. Mas aquilo que chamam de assistencialismo demagógico, o eleitorado menos favorecido tem chamado de sobrevivência. E o resultado - tirando-se escândalos sobre escândalos - foi recolhido nas urnas que reelegeram o Lula.
Comento nos próximos posts o oportunismo (acreditem, no melhor dos sentidos da palavra oportunismo) do pensamento liberal. Não se trata de criticar o Lula, mas o Lula e sua fragilidade intelectual é um prato cheio para esta gente nos vender idéia simplesmente insustentáveis.
Uma coisa é se discutir a validade de um Estado forte liderado por um governante fraco. Outra, bem diferente, é se colocar a culpa dos nossos fracassos num Estado supostamente forte.
Só para agitar as cabeças e provocar para a próxima rodada: independentemente do Estado, há poupança interna suficiente no Brasil? Há capitalistas em número e poder de investimento? Há gestão eficaz? A economia sobreviveria sem a presença marcante do Estado? Caso o BNDES retirasse suas fichas da mesa, a banca quebraria ou não? Sem o Estado brasileiro, do que viveriam os nossos liberais?
Maria Luiza Rodenbeck
Maria Luiza era o tipo de empresária que dobra as mangas e vai à luta. Bem diferente daqueles que se sentam lamentando de Estado e impostos. Trouxe para o Brasil as redes McDonald’s e Outback. Atualmente, apostava as fichas na operação verde-e-amarela da Starbuck’s. Li nos jornais que ela faleceu esta semana vítima de um acidente de táxi.
Por coincidência mórbida, caiu nas minhas mãos, também hoje, a edição de Isto É Dinheiro de 29 de agosto, ela na capa. No destaque, uma declaração para ficar gravada em todos nós: “O segredo é acreditar nos sonhos. Lutei nove anos para trazer o Starbuck’s. E finalmente consegui.”
Quanto vale um vagabundo?
Por falar em sonhos, fiquei imaginando o quanto seriam valorizados estes nove anos investidos no projeto Starbuck’s caso a Maria Luiza não tivesse chegado ao objetivo final. Ou o que significariam em seu histórico caso ela já não tivesse tido sucessos anteriores e uma justa e estável situação financeira.
Apliquei a mesma equação à situação de milhões de brasileiros que têm, de tempos em tempos, de se “reinventarem” profissionalmente, procurarem recolocações, se reciclarem, investirem tempo e recursos imaginando que podem retomar as suas carreiras do melhor ponto possível.
Cheguei à conclusão que, na avaliação pública deste mundinho imediatista, a diferença entre um vagabundo e um profissional de sucesso é o momento na curva, o quanto o sujeito está faturando naquele ponto com a sua atividade profissional.
Faça a mesma coisa, em dois momentos diferentes: primeiro, de graça, ou recebendo muito pouco; depois, recebendo o valor justo pelo trabalho. No primeiro momento, você será um vagabundo. Depois, seu sucesso será medido pelos seus ganhos. Bem-vindo ao mundo real.
Enquanto isso, a edição de Veja de 26 de setembro traz, escondida no meio de uma excelente matéria sobre o cérebro humano, uma outra frase para se pensar:
"Entre todos os grupos de homídeos que disputavam recursos escassos na Idade do Gelo, o mais bem sucedido foi o que encontrou tempo para decorar com pinturas as paredes das cavernas."
cantinho da impermanência
pitacos sobre o amor e a paixão.
Náufrago
Eu não deveria confessar, mas não é incomum que eu trabalhe com a tevê ligada. Dia desses, vi o Náufrago, aquele filme minimalista com o Tom Hanks, na Sessão da Tarde. Vi não, escutei.
Há um momento no roteiro que te leva, como expectador, ao mesmo tédio desesperante experimentado pelo protagonista. É quando ele começa a fazer planos para fugir da ilha e sua noção de tempo passa a considerar a passagem dos meses e das estações. Ele confessa para a bola Wilson que não tem mesmo mais nada para fazer além de pensar em fugir dali, e planejar consistentemente uma forma de executar a fuga.
Naquele momento, você percebe que o personagem do Hanks foi abandonado pelo mundo mas, na falta completa do que fazer, resolve não abandonar o mundo. E tentar, e tentar, e tentar... mesmo que leve todo o tempo do mundo. Tempo é o que ele mais tem.
Estou assim em relação ao amor. Eu tenho todo o tempo do mundo, e estou preso numa ilha. Eu posso esperar uma eternidade, mas vou chegar ao meu destino.
palavras, palavras...
letras e etc.
Meu pai, Angelo, acaba de editar a coletânea póstuma das últimas poesias do meu avô, Abelardo Romero. Ganhei alguns presentes: a oportunidade de conhecer melhor o trabalho do meu avô; uma dedicatória tocante; e, principalmente, a lição sobre a importância de se olhar para as próprias origens e valorizar aquilo que te formou. Inicio esta seção do blog com uma poesia retirada deste recém-lançado “Solo de Berimbau”.
A Brasa e a Cinza
"O carvão já não arde.
Está coberto de cinzas.
Mas se voltas, ainda que tarde,
E sopras o carvão
A brasa se reanima.
É que te amo ainda."
Abelardo Romero.